O Poliarquias estava meio abandonado, mas a saudade de escrever sobre política aqui foi grande demais para ser contida. Escrevendo um paper comparativo sobre instituições de controle e accountability (eu e duas amigas estamos analisando os casos de Brasil, Chile e Uruguai) para o congresso da Associação Brasileira de Ciência Política, me peguei pensando se ainda perdura na América Latina um quadro de "déficit de accountability" na região e mesmo se esse "déficit" é diretamente vinculado a uma maior ou menor percepção de corrupção nos países da região. Para sanar essa dúvida, a primeira coisa a fazer é pensar que "América Latina" é uma categoria geopolítica consideravelmente heterogênea, do ponto de vista político e institucional. E isso reflete diretamente ao se pensar nesse "déficit de accountability" na região.
Matthew Soberg Shugart,
Erika Moreno e Brian F. Crisp escreveram um artigo já "clássico", mas fundamental sobre a questão: "“Institutions,
Accountability, and Democratic Governance in Latin América” (busquem aí na net que vale a pena ler). Nesse artigo, os autores buscam discutir a qualidade democrática dos países da região, numa espécie de "graus de accountability". Para os autores, o problema de accountability é diretamente vinculado à relação principal – agent, já que a destituição do agent pelo principal é o fundamento do accountability, garantindo que os
políticos não oprimam seus eleitores.
É interessante observar que para os autores, as raízes do
déficit de accountability vertical
(ancorada em uma noção hierárquica e responsiva entre eleitores e eleitos) na
América Latina, majoritariamente constituída de democracias presidencialistas encontram-se
efetivamente no desenho institucional (p.03):
“including political parties (during the
candidate selection process), electoral rules, and “autonomous” agencies
(agents once removed).”
Um ponto importante para
cimentar essa percepção é que a relação entre principal (eleitores), que só teriam condições de exercer accountability no momento eleitoral, e agent
alicerça-se como condicional, fundamentada na possibilidade de destituição
do agent pelo principal (fundamento da accountability). E por isso da necessidade de uma reforma das estruturas
internas partidárias, mas também das regras eleitorais. Os autores, então,
formulam opções para essas reformas, contemplando o sistema eleitoral,
comparando sistemas reforçados de partidos com sistemas frágeis e seleções de
candidatos de cunho centralizador e descentralizador.
Daí me peguei pensando na relação que existe entre maior e mais qualitativa accountability e combate e controle de corrupção na região. Afinal, uma coisa está relacionada a outra (é a premissa do artigo para a ABCP). No caso, vamos nos deter - também - na série temporal de percepção de corrupção na região, oferecido pelo Índice de Percepção de Corrupção (IPC) da Transparência Internacional (mas não somente esse índice).
Veja o caso do IPC de 2006 por região na figura abaixo.
E agora o IPC para 2011.
Bom, visualizado/analisado a priori é como se houvesse certa "estabilidade" na percepção da corrupção na região. Mas existem dois fatores importantes que precisam ser lembrados: primeiro, que o IPC é um índice subjetivo e, como todo índice subjetivo, padece de limitações na averiguação de facto do fenômeno observado (embora seja, reconheço, uma excelente maneira de "fotografar" o fenômeno da corrupção) e segundo, de 2006 (para não dizer antes) até 2011, a América Latina tornou-se uma região relativamente estável políticamente, com ciclos eleitorais regulares, reforço institucional das liberdades democráticas como participação política e liberdade de expressão e organização política (embora alguns países, acredito, venham dando alguns bons escorregões quanto a essa parte). E estabilidade política é um fator determinante para o desenvolvimento de mecanismos de accountability e, de tabela, de combate à corrupção. Mas até que ponto esses fatores estão relacionados? Dai fico a pensar, se as pessoas não confiam nas instituições, logo também vão aumentar sua percepção de corrupção, mesmo que não seja tão alta.
Esse post foi mais uma forma de soltar o pensamento sobre o tema. Na verdade, neste instante escrevo o artigo. E a batalha está dura, no bom sentido intelectual da situação. De toda forma, depois do congresso da ABCP (que será em Agosto de 2012), vou buscar linkar o artigo aqui no Poliarquias.






